Páginas

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Grafites Empilhados - O Gigante adormecido


Não tem uma semana que escutei  no ônibus um rumor que me deixou indignada. Me deu vontade de descer na hora, parar o trânsito na avenida e gritar "protesto!". Mais um problema do governo, mais um abuso. Anda correndo entre bocas que mais uma vez os preços da passagem dos transportes públicos irão aumentar. Outra vez? Quantas vezes vão fazer isso esse ano? Já entendemos querida Dilma, já que tiveram que abaixar a cabeça em 2013, estão descontando - e em dobro agora em 2015. Quem estava nas manifestações naquele ano? Eu estava, é claro. Quando se trata de política meus mores, eu sou uma leoa.
Quem é pobre conformado sempre diz "protesto pra que? Só faz bagunça e não vai resolver nada. O Brazil não presta, o Brazil não tem jeito. É por isso que o Brazil não vai pra frente!" 
Eu preciso controlar fortemente meu gênio quando ouço esse tipo de frase. Sério, me deixa crazy



E depois de ouvir esses rumores comecei a lembrar das manifestações de 2013, o ano mais agitado e louco da minha vida. Entrou definitivamente para a história do Brazil (e para a minha), dá agora para achar na Wikipédia e em livros. E é claro que a indústria cinematográfica não ia perder a chance de faturar, então fizeram versões mais embelezadas da história em filmes. Mas nem ligo, o que aconteceu naquele ano foi muito mais cru e nada bonito, mas uma experiência única, longe de qualquer versão hollywoodiana. 
Eu estava no último ano do Ensino Médio, e estudava o dia todo - De manhã escola, de tarde Senai (Quem nunca). O Senai ficava em outra cidade aqui de Minas, uns 40min da minha. Então era busão todo dia. Eu já estava acompanhando os protestos em outros estados pelo jornal e pela internet. 

Tinha fóruns, comunidades, páginas no Facebook da Anonymous Brasil, Hackers invadindo sites populares e o circo tava pegando fogo. Já tinha chegado em BH, mas não tinha se espalhado por todas as outras cidades, embora a br 381 ficar todos os dias engarrafada. Difícil esquecer ficar sentada na escadaria do ônibus lotado. Do lado de fora um engarrafamento gigantesco. Então numa tarde ouvimos que na cidade ia ter o primeiro protesto às 17:00 iniciando na praça principal. 
Eu saí com uma amiga, decidimos passar pela praça. Eu não tinha comunicado nada a meus pais sobre chegar tarde, mas eu nem hesitei. Não tinha muitas pessoas quando chegamos, mas a gritaria já tinha começado.
Tinha potes de tinta verde e amarela, apitos, narizes de palhaço, cartazes. O cara que estava discursando, fez as propostas para aderirmos, explicou como ocorreria o movimento. Tava explodindo em todo país, e a repressão gritante era um combustível ainda maior. Em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, milhares de pessoas saindo na rua, e nós desmostraríamos apoio do lado de cá. As frases principais, os hashtag #vemprarua ou #ogiganteacordou era como um despertador no Twitter para novos lugares de manifestação.
Eu não só entrei pela primeira vez naquele dia quanto arrastei mais três amigos comigo. Caras pintadas, munidos de cartazes e apitos começamos os protestos em torno da praça porque a polícia militar só autorizou irmos pro asfalto depois de 18:00 da noite. E no horário em ponto invadimos as pistas permitidas. Meu cartaz tinha escrito "Cadê o Progresso?".

Não era mais de 19:30 quando de repente à minha volta chegaram pessoas de todos os lugares. Tantas pessoas, tantos rostos diferente e parecia que não tinha fim. Uma mar de pessoas.
A sensação, indescritível. Você esta no meio de dezenas, centenas pessoas, e todas fazem coros improvisados, e clamando para os de fora: "_vem, vem, vem pra rua, vem!!!". Minha voz se perdendo no meio de tantas outras. Perdi de vista algumas vezes meus amigos mas tentamos sempre ficar próximos. A minha amiga mais tímida depois eu acabei achando na multidão quase pendurada numa grade gritando com sua finas e potentes cordas vocais, com uma bandeira do Brasil. Impossível ter timidez ali. :p Você é gigante ali, sentindo a revolta de todo um país bombardeando no peito.
Troquei de cartazes e acabei com um escrito "Verás que um filho teu não foge a luta". tipo esse:


 De vez em quando a marcha parava, alguém discursava. Veio uma equipe de tv, filmando tudo.Por cima das nossas cabeças, deslizando a bandeira do estado de Minas Gerais. 
Sentávamos no asfalto como um símbolo de paz em frente a polícia, frente à repressão. No primeiro dia uma garota hippie perto de mim tinha levado um violão e músicas da Legião Urbana foram ressuscitadas e logo centenas de pessoas cantavam o trecho "Que país é esse?!!". Foi como libertar algo há muito tempo trancado. Coloquei toda minha revolta política naqueles dias.
Acho que a coisa mais bonita que aconteceu foi quando cantamos o hino nacional, milhares de pessoas. Indescritível.
Mas junto com a empolgação outro sentimento que eu experimentei foi o medo. Estávamos apreensivos de haver alguma repressão. Todas as manifestações começavam calmas, então mais tarde se tornava mais violentas porque os Black blocs sempre apareciam. Os Black blocs são os manifestantes violentos

É claro que eu não sou a favor da violência, eu conseguiria fazer o que eles fizeram,
 mas será que se os black blocs não tivessem atuado nas manifestações, os protestos chamariam a atenção de alguém? ou colocariam em xeque os políticos? Bom, temos aqui dois lados de uma moeda. Clica aqui para saber mais sobre os Black blocs. Eles não são exatamente "selvagens" baderneiros como pintados pela mídia, são radicais que escolhem a força bruta um modo de lutar contra a opressão bruta política. Minha mente aberta se recusa a condenar sem buscar saber primeiro.  Ponto. 
Acho que o medo foi um ponto interessante naqueles dias. Medo de ser presa inocente, medo de ser agredida. Em pleno século 21 aquilo estava acontecendo outra vez. Quando escutei pela primeira vez um tiro de borracha meu coração gelou e eu corri para uma área mais vazia no meio da multidão para ter uma rota de fuga melhor, para não ser pisoteada pela massa.  Meus pais não tinham idéia que eu estava na manifestação. E esse foi apenas o primeiro dia.

É claro que em tudo que acontece nesse país alguém tem lucro. E naquela semana e na seguinte as Brs estavam quase paradas, em uma cidade que tem um bairro atravessado pela 381, que é  quase todo um tipo de favela, os traficantes fechavam as pistas e quem se atrevia a passar tinha de enfrentar os traficantes. Queimaram carros de quem se atrevia além de levarem tudo. Cada dia determinavam uma regra  um dia nenhum caminhão passava, outro dia os ônibus também não, depois nada de carros. Os perueiros saíram lucrando  nisso pois cobravam a partir de R$ 50,00 para levar pessoas em seus carros irregulares.Mas quase ninguém podia pagar porque iam todo dia.
Já no metrô de manhã cedinho um dia vans de manifestantes lotadas pegavam o pessoal de carona pra levar pra BH. Qualquer um que quisesse chamando quem encontrasse pra embarcar e ir pro protesto. Foi o maior em Belo Horizonte. Se bem me lembro a repressão também foi violenta e ouve morte, mas não tenho certeza. Um grande movimento, por simples providências.
Agora a poeira baixou, o povo cedeu, ficou quieto depois da vergonhosa Copa do mundo. E agora descontaram e ouso dizer- com juros, os altos valores não cobrados em 2013. Crise? Dizem que estamos em crise. Mas qual vai ser o limite? Quando o gigante vai voltar a acordar? Se o que aconteceu em 2013 não se repetir, os abusos vão só continuar e não falo apenas da passagem dos transportes públicos.
#AcordaGigante .


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não é permitido agressões verbais e desrespeito