O erro dos bad days é que eu continuo bebendo café. E a cafeína desanda com tudo mesmo.
Eu estava pensando aqui hoje (deixando minha deprê de lado, papo sério aqui), como os preconceitos e aversão das pessoas umas com as outras no mundo profissional, pode alavancar uma carreira ou destruí-la completamente.
Enfim, hoje vou falar de algumas experiências durante a minha precoce escalada no mundo da arte. Tanto pra melhor explicar esse negócio de grafite, e como eu comparo os meus dias com eles. Coisa crazy né...
Eu sou estudante de Design de gráficos. Não gráficos de matemática, essas coisas. Pra quem não sabe o que é, o próximo parágrafo vai ser a explicação. Se já souber, pode até pular.
Design Gráfico é uma área que mexe principalmente com publicidades impressas ou online, mas tem um montão de outras coisas, tudo que envolve Arte Digital. Sabe a capa daquele livro fantástico que você a-ma? Foi um design que criou. Sabe o photoshop na Grazi Massafera? Foi um design que fez. Sabe o folheto daquele restaurante caro na zona sul, ou o cartão daquele agente de modelos que você sonha que lhe entreguem um dia? Foi um Design que criou.Que paragrafão pra explicar uma profissão! Então, eu começei a pôr o grafite pra fora muito cedo, depois da infância cheia de gente a minha volta dizendo "você desenha tão bem" (nem acho meu desenhos daquela época tão extraordinários assim, eu só não ia com a cara dos bonecos de palitinho), eu já sabia o que ia ser na vida.
Na verdade eu sempre soube que queria trabalhar com desenho porque não suporto fazer uma coisa que não gosto por pura obrigação, o que me fez decidir que viveria de uma coisa que amo. Algumas pessoas pensam mais no dinheiro, mas eu não seria feliz num trabalho chato e detestável mesmo com o bolso cheio (indireta pra quem vive assim = revolucione meu querido! Viva a life sem esse apego inútil ao dinheiro)
Só que não pense que porque você escolheu o que você ama vai ser fácil. Eu entrei num curso de desenho artistico com 13 anos, e de uma turma cheia de adultos que me olhavam de cima diziam "tão nova né", e só faltavam dar aqueles tapinhas/afagos amigávels que a gente dá na cabeçinha num poodle pra ele se comportar. Assim eu nunca era vista como uma pessoa que estivesse tentando se profissionalizar, mas como alguém que estava ali só por diversão, o que não era verdade. O preconceito das pessoas mais velhas com crianças e adolescentes que querem começar cedo a lutar pelo futuro é uma coisa palpável e difícil de encarar pelos mesmos, que estão tentando firmar seu sonho na vida.
Dessa turma de adultos, eu fui a única a concluir o curso. Eu me lembro com orgulho aqueles dias porque eu consegui o reconhecimento da pessoa mais importante ali, que era a professora. Por causa dela eu fui até o final, porque ela viu talento e capacidade onde os meus companheiros de curso só viam idade.
Sem contar que ao longo dos anos o que mais ouvi das pessoas mais velhas foi que desenhistas passam fome. O velho papo.
__E você quer trabalhar com o quê?
__Eu vou trabalhar com desenho.
__Ah, que bom. Vai ser estilista então? (porque eles logo pensam em estilista se você é mulher? Se for homem eles pergunta se vai ser arquiteto).
__Não. Não vou ser estilista, quero fazer ilustrações mas não de moda, eu ainda vou escolher a àrea específica ( eu ainda não tinha escolhido a minha área de atuação)
__Mas é tipo, desenho mesmo? Sair desenhando...?
__Tipo isso.
__Mas... ganha bem?
__Depende.
__Ah... - esse "ah" é dito com a boca torta pro lado e aquele olhar de cima em baixo com sobrancelhas levantadas o que significa "vai passar fome, tadinha".
__Mas porque enquanto que você não faz isso... - começa a jogada de idéias - Faz uns concursos públicos, é sempre bom ter emprego fixo, né.
Dessas conversas você não consegue escapar quando está na roda das Tias.
Enfim, logo depois eu entrei num curso de desenho em quadrinho, ilustrações, etc. Fã de HQ eu pensei ter encontrado a porta certa. Poderia ter sido, mas alguns sonhos assim como os grafites, às vezes se quebram.
Um sonho é como um grafite que você precisa manter inteiro até o final, mas eu não pude manter esse. Novamente por causa do preconceito, e dessa vez não só por eu ser nova, mas por eu ser mulher.
Sim. O maxismo existe mesmo no nosso século
Não importa quantas mulheres façam protestos, queimem calcinhas e dizem que temos o direito de ficar sem camisa como os homens (as
Num lugar onde eu era a única garota na turma de quadrinhos (as outras só faziam desenho artístico), eu me vi num ambiente onde todos ficavam chocados por ver uma menina gostar de HQ e querer trabalhar com aquilo. Ow, porque? Porque não pode?
Eu ficava travada porque me sentia como se isolada, ou a invasora de um planeta proibido. Não posso culpar só as pessoas à minha volta, eu deveria ter sido mais forte, não deixar que aquilo me afetasse, mas eu não conseguia bloquear aquilo e acabei não conseguindo me desempenhar como deveria.
A pura verdade é que olhando pra trás reconheço que não tinha a confiança e a determinação que tenho hoje. Eu era uma adolescente insegura sobre suas capacidades, cercada por adultos que diziam que ela era 'muito nova' e davam a entender (não falavam diretamente) que eu não tinha chance no mercado. E novamente não me encaravam como uma pessoa buscando uma profissionalização, mas sim um passa-tempo.
Algumas portas nunca eram abertas pra mim. Exposições, participações, interações de alunos, eu via todos à minha volta sendo chamados e eu continuava ali, com o coração apertado pensando, "e eu?"
Eu perdia a confiança cada vez mais, meu rendimento piorou, eu já não conseguia fazer arte por prazer. Cumpria as tarefas e só. Eu estava bloqueada.
Mas eu sempre fui teimosa até a medula, e odeio o gosto de fracasso. Tentei melhorar minha técnica, fiz o que pude. Eu estava no meu limite. Houve um período que sustentei as mensalidades com o meu salário de menor aprendiz do Senai (estava numa situação complicada em casa, sem mais coments), eu faria de tudo pra não desistir.
Mas a motivação agora era errada, eu queria provar às pessoas à minha volta que eu era capaz a qualquer custo (e foi muito alto), e isso ao invés de me fazer voar, quebrou as minhas asas. Um dos problemas de ser teimosa, é que sempre faço as coisas mais radicais pra não desistir. Eu estava me matando por algo que só me jogava cada vez mais pra baixo.
Eu entendo melhor hoje o sentimento daquela época. Eu só não queria desistir do sonho, sem ele, o que é que eu teria?
Foi aí que eu me achei quando encontrei um novo sonho. Eu ganhei uma bolsa parcial pra estudar Design Gráfico (eu nem sabia o que era até ir na escola), e eu dei uma guinada na vida. Decidi que Publicidade é o que eu quero. Eu pude fazer o que sempre quis, trabalhar com o que eu amo, que é o desenho, e a arte em geral.
Aquele sonho que se quebrou como um grafite doeu. Doeu muito. E o fracasso de ter desistido doeu mais ainda. Mas eu não poderia ter feito melhor escolha que abrir mão. Deixar ir. Foi tão leve quando consegui.
Eu não estou onde imaginei que estaria, quando eu era aquela garota de 13 anos entrando numa sala de arte. Mas eu não duvido que estou no lugar certo.
Quando vejo garotos de 13, 14 anos na escola de Design eu lembro de mim mesma. Se eu estivesse no lugar dos professores deles, eu daria todas as oportunidades que eu pudesse, incentivaria com tudo de mim. Daria a eles um propósito firme, como aquela minha primeira professora de Desenho Artístico me deu.
Todo mundo precisa subir uma longa escada, um degrau por vez pra conseguir um sonho. Não acontece como nos filmes que de uma hora pra outra você vira um prodígio naquela área, faz todo mundo gostar de você e consegue a melhor posição profissional em poucos passos.
Mesmo pra quem é rico e já nasce com uma poltrona de couro no topo de um arranha céu como herança, se não tiver habilidade afunda rapidamente. Ou outros fazem todo o trabalho e ele não faz nada. Mas a profissão de não fazer nada não é do que estou falando aqui.
Eu acho que para lutar pelos sonhos você não precisa dar 100% - Você precisa no mínimo dar 200%. Se você não está disposto a isso, seu sonho vai se quebrar como um grafite. Eu deixei o sonho do mundo HQ, porque não estava pronta ou confiante pra dar tudo isso. Sim, eu lutei como uma louca, me virava com contas e até virei menor aprendiz pra continuar, mas no final eu desisti. Eu dei 100%. Não 200%.

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